Reportagem produzida para programete Viver Bem –

Parceria entre FISMA e TV Santa Maria

 

O número de pessoas na Terra, com idade superior a 60 anos deve chegar a 2 bilhões até 2050, e a projeção do IBGE aponta que a população brasileira terá mais idosos do que jovens até 2060.  Hoje, de acordo com o último CENSO, são mais de 30 milhões de idosos no Brasil.

Conforme essas estatísticas, a sociedade também precisa modificar seu olhar acerca do idoso. São desafios enfrentados em relação à valorização das pessoas mais velhas e execução das políticas públicas para que a população envelheça com qualidade de vida, dentro de cada contexto e vivência.

A enfermeira, doutoranda e docente, Gisela Cataldi Flores, trabalha com os alunos e coordena projetos nas disciplinas da área de gerontologia na FISMA. Nossa reportagem conversou com a professora sobre “o novo olhar acerca do envelhecimento populacional”.

 

Reportagem – Professora Gisela, pode nos explicar sobre os principais desafios da sociedade em relação ao envelhecimento?

Profª Gisela – Um dos primeiros desafios, eu considero que é a mudança do olhar acerca da velhice. Quando eu falo mudança de olhar, eu quero dizer que: nós estamos, acostumados ao longo da vida, a associar o idoso, a velhice, com as patologias. Então, primeiro é repensar o porquê dessa associação, se é possível em ciclos de vida antecedentes, eu poder vivenciar uma velhice com independência, com autonomia, ter um envelhecimento ativo e participativo na sociedade. Então, o primeiro desafio é essa mudança.

Um outro desafio é a questão da formação acadêmica. É preciso formar profissionais de diferentes áreas – não só a área da saúde, para que compreendam as singularidades e complexidades próprias do envelhecimento, que é um ciclo de vida diferente dos outros.

Por terceiro, eu trago a reorganização social. Quando eu falo nesse assunto, me refiro a reorganização de contexto de vida, isto é, dentro das casas e fora das casas – os diferentes espaços por onde os idosos irão circular e, que hoje, não estão adequados para a vivência de uma velhice de forma que a pessoa possa circular com segurança com autonomia e independência.

Um outro desafio que eu considero de extrema importância e que já existem estudos, pesquisas e projetos de extensão, que é trabalhar o enfrentamento da segregação etária. O idoso conviver entre seus pares, mas também, ter um convívio intergeracional; o ganho é dos dois lados. Eu considero que com esses quatro desafios, seja possível viver em uma sociedade mais inclusiva e mais empática no processo de compreender o envelhecimento.

Reportagem – Nesse contexto, também é importante ressaltar que ocorrem muitas situações de violação dos direitos da pessoa idosa – violação que pode acabar resultando em violência. É possível identificar algo que sirva de alerta e que indique esse tipo de situação; como proceder?

Profª Gisela – Bom, quando se fala em violação a gente logo associa à questão da violência. A violência contra a pessoa idosa, hoje, nós dissemos que ela é uma epidemia silenciosa; nós não sabemos os dados reais. Existe uma subnotificação dos diferentes tipos de violência e isso tem algumas variáveis que interferem na subnotificação. Primeiro que os dados apontam que o principal tipo de violência que ocorre é o intrafamiliar e o principal agressor é o filho ou filha; o idoso na vivência da velhice, já com uma certa vulnerabilidade social, ele já nem identifica como violência, o agressor não identifica como violência e ela se naturalizou nas famílias e na sociedade. Ainda, existem vários outros tipos de violência, a questão do abandono, da negligência, da violência psicológica, financeira, medicamentosa… e é comum o idoso naturalizar essa situação com mais de um tipo de violência acontecendo ao mesmo tempo. Então, é uma situação que não é natural, que fere a dignidade humana, ela se naturalizou.

Reportagem – Profª, a senhora faz doutorado na Europa e acaba conhecendo a cultura de outros países. Com relação às leis, o Brasil é um dos poucos países que assegura os direitos dos idosos, com o Estatuto do Idoso, de 01 de outubro de 2003, onde passamos a celebrar o Dia do Idoso. Você pode nos contextualizar sobre as questões que envolvem a visibilidade e promoção desses direitos?  

Profª Gisela – Bom, o Brasil é pioneiro em termos de legislação, no caso em termos de legislação que trata das questões da velhice, nós temos principalmente o Estatuto do Idoso que é a Lei 10.741 e ela tem mais de 100 artigos que se for operacionalizada, o idoso brasileiro viveria com dignidade, com qualidade de vida, sendo participativo e autônomo. Entretanto, nós temos uma série de dificuldades para operacionalizá-la. Acredita-se que no momento em que a população passa a estar informada sobre os direitos legais e sobre os deveres, a questão da velhice passa a ser responsabilidade de todos, de todas as gerações. Por exemplo, se nós fizermos um comparativo do Estatuto do Idoso com o Sistema Único de Saúde (SUS), o Estatuto refere os princípios do SUS, que é: o idoso ter acesso universal, atendimento integral, as questões da equidade e diferenças, todas elas estão garantidas, tanto no SUS quanto no Estatuto.  E isso é o Brasil que tem. Então, nós podemos dizer que estamos legalmente assegurados e preparados para mudar a realidade e enfrentar os desafios que falamos anteriormente.

Reportagem – Os cuidados em Enfermagem voltados ao idoso, se modificam também de acordo os números. Se a estatística mostra um aumento da população idosa, os profissionais da saúde devem estar atentos às necessidades apresentadas. Como podemos perceber essas mudanças no segmento da Enfermagem?

Profª Gisela – Sim. Por exemplo, o nosso primeiro projeto de extensão do curso de Enfermagem da FISMA, ele começou a partir de uma questão social, de relatos de idosos em situações em supervisões de estágio do curso de Enfermagem, no qual eles referiam que os serviços oferecidos e as discussões estavam sempre relacionadas às patologias e que, o principal problema deles era a questão do conflito intergeracional. Nesse sentido, nós sentamos e construímos um projeto de extensão intitulado “Envelhecimento populacional: uma responsabilidade de todas as gerações”. Nós já estamos com o 4º semestre no curso, desde o início de 2018 nós temos esse projeto, onde  trabalhamos com crianças do 1º ao 9º ano, com diferentes temas acerca da velhice. Por exemplo: o tema violência é trabalhado na escola, prevenção de quedas, qualidade de vida… e aí, nós trabalhamos com a criança como corresponsável pelo seu envelhecimento, e, com a criança como um elo entre a escola e a família, a infância e a velhice.

Profª Gisela – Dia 1º de outubro, é o Dia Mundial do Idoso e Santa Maria instituiu em 2019, o Dia Municipal do Idoso. Na verdade, a gente pode pensar que um dia não vai fazer grande diferença, mas eu acredito que é um dia de reflexão social, é um dia que nós precisamos parar para pensar, para quem não é idoso: qual a velhice que eu quero ter? Como que eu me imagino idoso e como que eu quero viver esse ciclo de vida? E para quem já é idoso, o que eu tenho de direito, qual é o meu papel para vivenciar esses direitos?

 

Confira o depoimento da prof.ª Gisela neste link.

outubro/2019

 

 

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